O dia 18 de julho de 1975 constitui data referencial da dinâmica paranaense, tendo a realidade no campo se transformado a partir de aí de maneira nunca dantes visto, fazendo parecer ingênuo os muitos planos até então elaborados com vistas à transformação da agricultura no Estado. Eram planos dos governos federal e estadual, através respectivamente do Ministério da Agricultura e Secretaria da Agricultura, das agências de desenvolvimento como CODEPAR e principalmente, do Instituto Brasileiro do Café, o poderoso IBC.
De há muito se vinha tentando livrar o Estado da dependência quase exclusiva do café através de planos de erradicação de lavouras de baixa produtividade, planos de diversificação, planos de integração e por aí afora, mas o cafeicultor, mesmo diante dos riscos de geada e da flutuação dos preços, sempre teve o café como a lavoura nobre da propriedade. Podia até explorar um pouco de milho, arroz e feijão, mas um pedaço de café tinha que ter.
Pois é, na noite de 17 de julho de 1975, uma quinta-feira, os céus fizeram cair a geada de tronco, aquela que destrói até a raiz da planta pelo congelamento da seiva, diferentemente daquelas mais brandas que afetam ramos e folhas. No dia 18, o Paraná amanheceu de luto, tinham acabado os cafezais. Foi o custo a ser pago, o chamado custo de oportunidade, o custo para ter a oportunidade de uma agricultura diversificada.
Jaime Canet, governador do Estado e cafeicultor saiu cedo para Londrina. O céu era de brigadeiro, completamente azul como geralmente ocorre depois de geadas. No aeroporto de Londrina o clima era de velório. Paulo Carneiro, Secretário Estadual de Agricultura estava em viagem oficial a Inglaterra, curiosamente tratando do tema café. Diz-se que Deus dá o frio conforme o cobertor e em assim sendo, antes da geada Deus contemplou o Paraná com o governador ilustre que se agigantou na reconstrução do Estado, dependente que era da agricultura, majoritariamente do café.
A Secretaria da Agricultura, cujo projeto de modernização organizacional vinha sendo implantado teve que, da noite para o dia, implantar seus núcleos regionais e capacitar seus gerentes. A ACARPA, órgão de extensão rural, muito respeitado à época, teve que triplicar seu número de escritórios e técnicos sob o comando de Dúlio José de Paola, dirigente sensato e harmonioso da mais alta competência e dedicação. O IAPAR, com menos de três anos de sua criação, foi submetido à prova de fogo com a cobrança de alternativas tecnológicas para a crise, tendo dado conta do recado pela liderança de um saudoso Raul Juliatto.
A modernização da Secretaria da Agricultura, cujo modelo estruturante persiste até os dias de hoje, deve muito ao agora saudoso Dúlio. A ACARPA, hoje Emater, não queria ter sua imagem de “boazinha” associada à combalida SEAB. O IAPAR, criado pelo ilustre e saudoso Parigot de Souza, queria ser igual a COPEL, não queria se misturar, com seus mestres e doutores. Não fosse Dúlio, o fantástico conciliador, a Emater teria sido engolida sem mastigar, de goela abaixo, e o Juliato teria sido devolvido ao seu Ministério da Agricultura para cuidar de parreiras em Campo Largo. Deus o tenha Dúlio.

 

Joaquim Severino – Diretor Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A e Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná – 1973/2010, tem escrito mais de mil artigos nesta coluna desde 1992.