A ROÇA QUE NÃO PERDE A GRAÇA

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Que a roça não perde a graça é uma verdade, pois cada canto tem seu encanto, mas o que mais se ouve nos dias de hoje é que a roça já não atrai mais ninguém e os poucos, cada vez mais poucos que ainda lá vivem, pouco sabem e muito pouco se interessam pela história e estórias da roça. Eram nas conversas na beira da “tuia”, depois da “janta”, que a cultura rural da época se transmitia dos mais velhos para os mais novos e era onde, também, causos verdadeiros ou não, desandavam em risos ou choramingo.
Hoje em dia nem “tuia” tem mais. A paisagem e as motivações foram se mudando sem que se possa dizer qual delas que foi uma puxando a outra. A realidade é que não existem mais as colônias nas fazendas com casinhas enfileiradas, terreirão ao lado para secar café e o depósito grande com um sino no qual o feitor dava as horas para o início da lida.
O dia a dia na roça, de segunda a sábado de tarde era de um tédio muito grande. Fora o sábado de pagamento que era quando se ia à cidade uma vez por mês, sobrava para diversão só mesmo o sábado a noite e o domingo. Dia santo para se folgar só mesmo os mais respeitados como sexta-feira santa, dia de nossa senhora e do nascimento do menino Jesus. Velório era sagrado, ninguém trabalhava e a noite do morto era atravessada com muitos causos. E pinga.
Dia de chuva era dia de limpar a “tuia”, descascar e debulhar milho, passar sebo nos arreios, encabar ferramentas e a depender, matar um “capado” e encher latas de porco na banha. Dia de matar porco era dia de muita agitação, palhada para sapecar o bicho e fervura de muita água para a limpeza. A presença de um ou mais vizinhos era certeza, pois contrariando Veríssimo não é só “mosca de bicheira que gosta de montoeira”.
Final de tarde em dia de chuva era certeza de pesca abundante de peixes de água barrenta como bagre, jundiá, mandi e até cascudo, este último sendo o campeão para fazer caldo. No caminho para o riacho a espingardinha pica-pau servia para chumbar o que aparecesse pela frente, de rolinha a pomba do ar, de nambu a perdiz, sem falar em alguma cutia ou paca “destraviada”.
Na roça de hoje em dia não tem mais vaquinha, o leite já vem na caixinha, até as galinhas que alegravam o terreiro desapareceram, assim como os vizinhos, aliás, não mais fazem falta para bater papo, a televisão substitui com vantagem especialmente àqueles que se esquecia de ir embora. Em verdade a roça não perdeu a graça, mas sim os que nela viveram enquanto roça das ”antigas”. Os que não perderam a graça se contentam em brincar de roça nas chacrinhas de final de semana. São os que saíram da roça, mas não ela deles. “Que nem eu”!

 

Joaquim Severino – Diretor Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A e Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná – 1973/2010, tem escrito mais de mil artigos nesta coluna desde 1992.