A NAÇÃO TEM PRESSA

634

Fechada praticamente a composição do novo Governo, com a escolha dos últimos ministros cuja nomeação estava pendente, é hora de a nova liderança se dedicar ao projeto de gestão que vai aplicar no próximo quatriênio. A nação tem pressa para retomar o crescimento, que embora positivo não passará de 1,6%. A melhoria é urgente para a criação dos 12 milhões de empregos necessários para os brasileiros ainda sem trabalho.

ANÁLISE

Nessa ótica endossamos a iniciativa conjunta de dois órgãos do alto escalão – Advocacia Geral e Controladoria Geral da União – de fechar acordos de conformidade (leniência) com empresas envolvidas nos últimos escândalos de gestões anteriores. Punir os donos e executivos responsáveis é uma obrigação, salvar as empresas nacionais, os empregos e a expertise nelas acumulados é outra – a demonstrar maturidade institucional do país.

IMITAR O VIZINHO

Superar problemas do passado recente revelou-se estratégia positiva para um país vizinho, o Chile. Ele – e não o país-anfitrião – é que estará em destaque na cúpula que se inicia hoje na Argentina. O Chile acaba de ser reconhecido pelo FMI como o primeiro país da América Latina a ostentar renda per capita superior a 25 mil dólares (poder de compra), ingressando no clube dos ricos.

ANÁLISE

O desempenho chileno ainda é relativo: limitações situam o país andino ainda fora da lista de economias avançadas (sobretudo, falta de densidade econômica). Mas o sucesso é visível, graças a um conjunto virtuoso de políticas públicas, seguido sem descontinuidade desde a redemocratização: responsabilidade fiscal, livre comércio e acumulo de poupança interna. Lição para o Brasil, preso à “armadilha de renda média” e que perdeu 20% do PIB nos anos recentes por equívocos de governos guiados por ideologias vencidas.

 

GOVERNAR COM 30

Superada a crise da retirada abrupta dos médicos cubanos, graças à diligência da gestão Temer, o novo Governo passa a enfrentar outro problema: a articulação com o Congresso atual para fazer avançar pautas de urgência (orçamento revisado de 2019, ajuste da estrutura ministerial, autorização para a venda de excedentes de petróleo, etc), antes do início da nova Administração.

ANÁLISE

Nesta semana aconteceram idas e vindas, com indefinição do encarregado da interlocução com o Congresso – função crítica que, para ser bem sucedida, deve ser atribuída a um só responsável. Ainda, o governo Bolsonaro terá dificuldade em lidar com as duas Casas do Parlamento, hoje fracionadas entre 30 bancadas partidárias e mais de uma dezena de “frentes parlamentares”.

ANÁLISE (II)

A solução ideal, viável em futuro, seria aglutinar as forças políticas no Congresso em federações (permitidas pela legislação) que expressariam três ou cinco macro-tendências. Assim, a do centro-direita juntaria os apoiadores do novo governo; a de centro-esquerda, com uma oposição moderada (nucleada no arranjo PDT-PSB em curso); mais um aglomerado à esquerda (PT-PSol, etc).

 

GOVERNO ENXUTO

Em reunião com membros do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – órgão de interlocução do governo federal com a sociedade civil – o deputado Ônix Lorenzoni, futuro ministro da Casa Civil da gestão Bolsonaro, assegurou o compromisso de limitar o tamanho do Estado. “O Brasil precisa ser simplificado”, declarou o dirigente, lembrando o recado das urnas em outubro.

GOVERNO (II)

Nessa linha, Lorenzoni acrescentou que o grupo de transição se esforça para manter a estrutura enxuta, diretriz enfatizada por Bolsonaro. É que, apesar da promessa de campanha (15 pastas), a nova equipe vai indo para 21 a 22. Nessa composição, contudo, há gordura a queimar; funções de Secretaria de Governo e Secretaria Geral da Presidência, por ex., no passado repartição interna da Casa Civil (ao lado do então Gabinete Militar, hoje de Segurança Institucional).

ANÁLISE

Enxugar deve ser palavra de ordem, porque a burocracia tende ao crescimento vegetativo em interesse próprio – já advertia há um século o pensador Max Weber. Conter o Leviatã estatal é o desejo das sociedades, tarefa que na democracia é promovida pelo voto: ao eleger sua plataforma o povo delega essa tarefa de ruptura controlada a um novo líder – no caso o eleito Bolsonaro.

ANÁLISE (II)

É possível fazer mais com menos, usando talento e determinação. Essa a lição do 6º Prêmio “Gestor Público”, iniciativa do Sindicato de Auditores Fiscais da Receita Estadual, que segunda-feira destacou 121 projetos inovadores de municípios de todas as regiões do Paraná. O prêmio principal coube ao pequeno município de Quarto Centenário: todas as crianças em idade escolar têm ensino público integral. “Com o dinheiro poderíamos asfaltar toda a cidade, mas preferimos investir na formação dos “Cidadãos do Futuro”, justificou o prefeito Reinaldo Krachinski.

 

CRISES DE FORA

Mais uma vez, é preciso correr para a retomada. Porque o cenário internacional ficou menos favorável do que na transição anterior de Fernando Lula para Lula (2003). O crescimento da economia mundial desacelerou, fruto de fatores como a tensão comercial que opõe Estados Unidos e China, repercutindo na Europa, Ásia e outras regiões; o conflito reaceso entre Rússia-Ucrânia e a instabilidade no Oriente Médio (Arábia Saudita, Irã, etc); tornando flutuante a economia do petróleo.

ANÁLISE

Hoje o Brasil depende menos do ambiente externo em importação de petróleo e equilíbrio cambial (graças à produção interna, fontes alternativas de energia e colchão de liquidez das reservas), porém desdobramentos nos atingem indiretamente. Tanto que a cotação do dólar corcoveou na semana, forçando o Banco Central a vender contratos de câmbio e queimar reservas, conseguindo estabilizar a cotação da moeda forte.

Rafael de Lala e Vagner de Lara, jornalistas