Em 2015 uma grande amiga muito bem-sucedida profissionalmente decide comprar uma saia lápis para um evento importante do qual participaria. Encontra a peça na loja de uma marca brasileira especializada em office outfits, ou, moda corporativa.

Ao entrar, sentiu imediatamente o olhar de desprezo que lhe atravessou a alma, vindo de uma vendedora perguntando o que desejava. Minha amiga sequer teve tempo de apontar o item e já foi fulminada com a afirmação de que para ela não havia tamanhos disponíveis. Ela usava 48. Desconcertada, deixou a loja da qual não chegou a passar da porta, com um sentimento de tristeza, indignação e exclusão por enorme constrangimento.

Minha amiga não foi a primeira e não será a última. A moda é um ambiente excludente e majoritariamente gordofóbico. O ódio ao próprio corpo desde muito cedo, já na infância, é fruto dessa gordofobia presente na sociedade. Segundo um levantamento feito pela revista Glamour, no varejo brasileiro, apenas 5% (cinco por cento) das marcas produz roupas femininas acima do manequim 46. E a justificada insatisfação das consumidoras é frequente: peças em cores tediosas, sem forma, e modelagem feita para disfarçar e encobrir, estampas de mau-gosto, qualidade inferior dos tecidos, como se mulheres maiores pertencessem a uma subcategoria e não merecessem ter acesso ao que é bonito.

A falta de opção de belas peças de qualidade e mais inclusivas para esse público é a parte mais visível de um preconceito enraizado. Perguntei a uma jovem e talentosa estilista que passou a desenvolver tamanhos maiores para sua marca, quantas aulas de modelagem plus size ela teve nos quatro anos de faculdade: nenhuma, disse ela. Indaguei-a sobre qual seria a razão.  Depois de refletir brevemente, ela respondeu que os próprios alunos e designers são seduzidos por um ideal estético, um desejo velado de criar peças para mulheres irreais, sílfides que longe passam do padrão das pobres mortais, e que as mulheres curvy não se encaixam nessa figura mítica.

As pessoas estão engordando. No Brasil, aumentou em 25% o número de mulheres acima do peso. Nesse universo de total exclusão, todo mundo está descontente: jovens mulheres insatisfeitas porque não encontram roupas trendy para compor seus looks instagramáveis; e mulheres acima dos 40 anos, realizadas na carreira, ávidas por peças de qualidade, bem cortadas e com belas estampas e cores para seus importantes compromissos profissionais, como minha amiga, que não se importa de pagar mais caro para isso. Um gap de mercado que incompreensivelmente não está sendo satisfeito. Até o icônico Karl Largerfeld, conhecido pela língua mordaz e frases gordofóbicas, assinou em 2018 uma linha de peças destinadas a mulheres plus size.

Não é o momento nesse espaço, de fazer ruído sobre questões ligadas ao sobrepeso e as consequências para a saúde. Porém, se a mulher se sente feliz, saudável e tem uma atitude de aceitação e respeito consigo própria, assim deve ela ser considerada e cortejada pelo mercado fashion!  A inclusão, mais do que uma estratégia mercadológica é direito de todos, independente da forma, cor, raça. Por uma moda mais real, inclusiva, sustentável e colorida!

Ana Fábia R. de O. F. Martins

Advogada, Especialista em Direito e Negócios Internacionais e Especializada em Direito da Moda.