Ana Fábia R. de Oliveira F. Martins

Hattie Retroage gosta de namorar. Tem sua conta no aplicativo para solteiros Tinder há oito meses, e desde então, já esteve com mais de cinquenta parceiros, e está sempre pronta para uma nova aventura romântica. Ela entendeu e abraçou intensamente a casualidade dos encontros sem compromisso. Bonita e vaidosa, assume e vive plenamente sua sexualidade, aproveita a vida e não vê o menor problema de sair com homens mais jovens. Afirma nunca ter sido rejeitada. Hattie tem 83 anos, é dançarina, já posou como modelo e vem sendo um dos assuntos do momento. Assim como a “feiura” da primeira-dama francesa, Brigitte Macron, cuja idade ultrapassa 24 anos a de seu esposo mandatário francês. “Feia”, foi o termo usado para descrevê-la, por um dos altos agentes do Poder Executivo brasileiro.

Ambos os exemplos acima contam histórias de mulheres fortes, altivas assumidas e de bem com suas idades e corpos, malgré tout, apesar de tudo, como se diria em bom francês. Apesar das críticas, do machismo, do preconceito, dos haters e das haters de primeira hora das redes sociais. Sim, porque sororidade é um sentimento raro entre nós mulheres. Mas, mulheres como as descritas acima são a expressão visível de um movimento, lento, porém radical, de reavaliação dos conceitos tradicionais de beleza, um clamor por diversidade e inclusão. Iniciado com a moda plus size, depois as tendências genderless (agênero), e, então, a aceitação da idade, que começou com mulheres importantes assumindo seus cabelos grisalhos, libertando-se da ditadura das tinturas. É a revolução greynaissance, ou the agé trend, que veio para ficar.

O envelhecimento é um processo irreversível para todos e todas. Mas, sua aceitação é sempre mais dolorosa e cruel entre as mulheres, frequentemente mais cobradas e criticadas nessa fase da vida. Tratamentos, retoques estéticos, cremes de beleza, dietas, podem até nos ajudar, mas, não existe fórmula mágica para parar os efeitos irreversíveis do tempo que, aliás, nos alcança a todos.

E esse nicho de mercado 50+ era invisível até há pouco tempo atrás pela indústria da moda, obcecada com a beleza perfeita, silhuetas firmes e jovens. Porém, um olhar mais sensível às mudanças culturais e sociais contemporâneas passou a perceber como absolutamente necessária a inclusão de mulheres dessa faixa etária como grande público consumidor de moda.

Com efeito, trata-se de uma clientela que geralmente se encontra em outro momento de carreira, e, por conta de sua experiência de vida, é mais resoluta em suas decisões, cujas compras não se dão por impulso, sendo em regra, mais exigente, capaz de perceber que o verdadeiro luxo não se resume a uma logomarca gigante aplicada em um cinto ou sapato, mas, na rigorosa escolha de materiais, no processo de fabricação, acabamento e conforto das peças, onde o preço se torna um fator secundário se comparado à qualidade e exclusividade. Que o diga Helena Shchargel, a vovó brasileira que se tornou modelo de lingerie aos 79 anos e protagonizou um sucesso estrondoso!

Consumidoras mais velhas são mais leais às marcas que lhes agradam, preferindo dispender mais em um produto superior, “(…)do que a jovenzinha que ganha de sua mãe a bolsa Prada de seus sonhos no Natal em família”, como afirmou a colunista Constanza Nardini, em artigo publicado na revista virtual Collectible Dry (https://www.collectibledry.com).
Em um mercado competitivo que cada vez mais precisa se reinventar, a celebração da inclusão, a aceitação dessa nova estética nas campanhas e editoriais é o elemento de autenticidade e personalidade que faz da moda um vetor e reflexo das mudanças de seu tempo. Mesmo que pareça feio para uns sujeitos regredidos. #desculpabrigitte.

* Ana Fábia R. de Oliveira F. Martins é advogada.