A atual e irresistível releitura do passado pelas mãos de Eduardo Borges

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O imóvel dos anos 1940 antes… Fotos: Roger Engelmann

Reedições, releituras e atualizações de peças e propostas arquitetônicas e de design icônicas vêm à tona na contemporaneidade como forma de expressão de uma história rica em memória, criatividade e momentos de inovação que ainda hoje repercutem nos modos de viver e morar da sociedade. Neste sentido, estas atividades são como a tradução, a interpretação de um poema para um novo idioma, transportando a linguagem e o olhar de épocas diferentes a partir do olhar único e sensível de seu tradutor.

Talentoso, multidisciplinar e com um modo particular e global de enxergar os espaços, o designer de interiores Eduardo Borges consegue implementar tal arte com maestria, como ocorre no imóvel localizado no coração da Rua Comendador Araújo, número 413, em que acaba de finalizar seu mais novo projeto de releitura.

O imóvel dos anos 1940 antes… Fotos: Roger Engelmann

Chamado “Apartamento 23”, o imóvel está localizado em um edifício datado de 1943. Sua atmosfera, mais do que a estrutura, pertence a uma época fora de nossa cronologia – uma verdadeira viagem no tempo. O apartamento escolhido pelo designer para releitura teve valorizadas características construtivas e históricas dos anos 1940, ganhando de outro lado atualizações estéticas, técnicas e funcionais que o tornam irresistível para o morar contemporâneo.

Os imóveis adquiridos por Eduardo Borges são tratados como “telas”. Neles são desenvolvidas releituras (o designer não fala em reforma, que altera a natureza do imóvel) e, através delas, resgatadas as essências de cada espaço – um trabalho inédito em Curitiba. Com o apartamento 23, não foi diferente. “O imóvel tem cores, memórias e detalhes dignos de nota, além da capacidade de se “ausentar” da atualidade, colocando-se em um intervalo temporal que pode ter como cenário tanto Curitiba, como qualquer outro lugar do mundo”, avalia ele. Quem visita o imóvel tem mesmo essa sensação: trata-se de um espaço, definitivamente, cosmopolita.

Em todo o imóvel, de 97 m², predomina um estilo contemporâneo, com uma assinatura de cunho histórico. A releitura parte do princípio de que as pessoas que passaram a habitar a região agora apresentam novas necessidades. “A ideia foi aproveitar a excelente metragem do imóvel para comportar um outro estilo de vida. Posso dizer que o resultado é um loft reversível”, diz Eduardo. Pensado para um homem solteiro ou um casal sem filhos, o apartamento está todo integrado. Nele, as áreas compartilham uma luz natural privilegiada, contudo, há uma divisão conceitual que remete às décadas de 1950 e 1960, através de blocos vazados de concreto – uma releitura de cobogós.

Com a exclusividade de uma assinatura (o design assinado e ímpar em todos os detalhes é a marca do trabalho de Eduardo Borges) e uma releitura absolutamente única, o apartamento e sua nova geometria congregam amplitude, paisagem e aconchego – elementos que, com toda a sua força, suscitam também novos efeitos e sensações, sem nunca deixar de respeitar e reconhecer o DNA do imóvel. “Diria que tem uma certa dose de elegância dos anos 1940, permeada por materiais em estado natural”, considera o designer. “A releitura do espaço vem emoldurada pela incidência icônica da luz do sol, que preenche todo o imóvel e faz despontar as linhas originais da planta, ao mesmo tempo em que flerta com soluções de uma estética nova, refinada e cosmopolita.”

 

 

… e depois da releitura assinada por Eduardo Borges: a geometria retangular foi mantida, ainda que algumas paredes tenham sido removidas para dar vida à ideia da integração dos espaços. Um dos destaques diz respeito ao piso em parquet – a análise de um restaurador constatou que era de imbuia dourada, uma madeira já extinta em todo o mundo. Por isso, o parquet foi reaproveitado, tornando-se o norte do projeto. “Ele pode ser visto nas paredes da cozinha, como detalhe decorativo no lavabo e no banheiro, e na cabeceira da cama, por exemplo”, detalha o designer. Fotos: Roger Engelmann