A ARTE DE MOBILIZAR

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A expressão “mobilização da comunidade” perdeu muito da sua significação na medida em que passou a ser usada por quem quer que seja e para o que quer que seja. Passou a constituir-se em palavrinha mágica, aquela em que tudo se soluciona como que por milagre. A realidade, no entanto, é que sem muita transpiração de pouco vale a simples inspiração.
A própria mobilização, a qual antecede a ação requer, por si só, um trabalho e tanto. Um trabalho de compreensão do homem e do meio, um trabalho de concepção de estratégia adequada, um trabalho que assegure mais que a simples sensibilização, que assegure isto sim, o engajamento responsável. Em outras palavras, cada um fazendo a sua parte, na sua parte, resulta o todo desejado. Sem “chupins e chupinhados”, o que é muito difícil. É por isso que se considera como arte a capacidade para mobilizar.
Para quem quer que seja que deseje constituir-se em “mobilizador de comunidade”, nada mais fundamental do que a capacidade que se deve ter para a “percepção” das coisas. Não se tem olhos para aquilo que não se busca e, portanto, não será bem sucedida a estratégia que não tome em conta as “buscas” de determinada comunidade. Não a “busca” que está aí escancarada, mas as inúmeras pequenas “buscas” de cada um dos membros da comunidade.
Em condições onde prevalece o princípio de que “tudo é nosso e nada é meu”, a arte de mobilizar precisa ser mais e mais refinada. A sociologia rural brasileira, a partir dos anos 50, constituiu a ciência em que mais se desenvolveu esse conceito de mobilização de comunidades. A extensão rural sempre se baseou nos seus princípios, buscando alcançar massividade a partir dos chamados efeitos demonstrativos e multiplicadores.
Como se sabe, a extensão rural brasileira há muito deixou de ser a “salvadora da pátria”. Talvez porque os motes para a mobilização sejam outros. Talvez porque o enfoque tenha que ser “primeiro o meu para depois o nosso”. E se assim for e assim tiver que ser que estratégia terá que ser desenhada. Os trabalhos de manejo integrado de recursos naturais em nível de microbacias sempre representaram laboratórios quase ideais para a mobilização de comunidades.
Funcionando uma microbacia como um verdadeiro sistema, o não engajamento de um único membro dessa comunidade pode comprometer o todo. Portanto, tratar de maneira igual os desiguais, pode não ser a estratégia certa, mas sim a estratégia de tratar de maneira desigual os desiguais. Até mesmo para isso e para garantir que um tratamento diferenciado não constitua objeto de rupturas, estratégia adequada é preciso. Estratégia é a inteligência do processo. Mobilização sem estratégia inteligente é montoeira, muito comum em moscas de bicheira.

Joaquim Severino – Diretor Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A e Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná – 1973/2010, tem escrito mais de mil artigos nesta coluna desde 1992.