por Claudia Queiroz

Mãe é um ser iludido. Seduzida pelo maior amor do mundo, mordeu a isca e se perdeu no paraíso… Pra se encontrar novamente entre frustrações e encantos. Porque a sensação latente pós-parto é que a própria vida pausa por um longo período para exercitar as necessidades do outro em primeiro lugar…

Vaidade, tempo, exercícios físicos, leitura, longas horas com as amigas, a retomada da profissão e dos interesses individuais em modo ‘estátua’. Pode levar anos ou perdurar eternamente, ainda não sei. Mas mãe é assim… E, ao integrar esta nova realidade, hoje admiro e respeito ainda mais todas elas.

No momento sagrado em que uma mulher faz o acordo velado com Deus, sussurrando seu desejo de experimentar a dor e o prazer que só a maternidade oferece, estabelece amor umbilical com sua cria. A partir de então, deixa de ser o que sempre foi para tornar-se outra versão dela, muitas vezes dual, conflitiva, paradoxal… Dizem que os efeitos colaterais amenizam com o amadurecimento.

Ao fincar os pés no chão, nutrindo e estendendo a profundidade da própria raiz, essa mulher vira uma árvore frondosa, cheia de sombra, carregada de galhos ramificados e frutas que matam a fome e a sede de quem escolhe viver perto dela.

Pessoa mais importante do mundo? Ela. Pra poder cuidar do entorno. Servir de referência, aconchego e ninho. Mas enquanto duela com seu passado recente, não é raro entrar em crise existencial. Acabaram os saltos altos, a saia curta, a roupa decotada, as noites longas de diversão, as respostas prontas do que pretendia fazer quando era a única responsável pela agenda.

Se isso é uma reclamação? Claro que não! É uma página nova sendo escrita, com o extrato de tudo o que aprendeu na vida e que todos os dias, ao fazer o download da alma, é reafirmado automaticamente com a mensagem subliminar: seja exemplo, ainda melhor, desapegue-se da futilidade, aprenda a sorrir para as adversidades e limitações que essa nova fase traz… Ela é a sua escolha, que te liberta pra sempre da solidão e dos valores pequenos. Por isso seja grande!

Ninguém é mulherão perpétua. Nem acorda com pele de pêssego, corpo modelado, cabelo levemente ondulado e impecavelmente hidratado. Mas mães são cúmplices de pertencimento de amor verdadeiro. Concordo que mantemos olheiras crônicas e o cansaço nos faz companhia. Mas ao me olhar no espelho e perceber todas as mudanças que a maternidade trouxe, procuro enxergar o reflexo de toda a luz que vem nesta imagem cheia de brilho nos olhos e de orgulho em ajudar o mundo inteiro, ao ninar minha filha. Ela é a semente capaz de germinar o que quiser na vida dela, desde que seja regada com amor.

Quanto ao amor próprio? Sabe aquele momento no sofá, com toda a casa bagunçada, meu marido com a cabeça deitada na minha barriga ‘não mais tanquinho’ e a filhotinha disputando a outra parte do colo, como se tudo o que é mais importante na vida coubesse em 2 metros quadrados? Respiro fundo. Expiro e me inspiro. O amor vive ali. É disso que estou falando.

*Claudia Queiroz é jornalista.