Um pé no número 44 e outro no 33

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Recém-realizada em Gramado-RS, a edição de inverno 2018 da Zero Grau, feira nacional calçadista, é histórica devido ao tema que evocou – a pluralidade de gênero ou, simplesmente, o não-gênero. O tema foi exposto na passarela, onde o ator Silvero Pereira despontou e também nos estandes que visitou e no debate de moda, e concretizado entre os expositores. Um dos destaques entre as 1200 marcas foi a feminina Variettá, gaúcha que há cinco de seus dez anos de vida vem oferecendo numeração 44 em seus scarpins, sandálias e botas de saltos altíssimos – 16,5cm.
Frederico Pletsch, realizador da feira, encarou o tema da pluralidade com simpatia, mesmo porque as mulheres que precisam de numeração especial passam a ser bem servidas. Tanto as que requerem número 33 e não auerem usar sapatos de crianças, quando as muito altas. Sua esposa, Roberta Pletsch, confessa ter sofrido usando calçados abaixo de sua numeração, por falta de opção.
Hoje, sua coluna agradece, pois “agora a oferta é maior. Os fabricantes investem cada vez mais no aumento das numerações”. Mas recomenda: “A indústria precisa ser ainda mais eclética, focando também as diversidades de gênero.
Já o lojista tem que passar a acreditar mais no poder de compra desses públicos ”.
Gracieli Carvalho e o sócio Márcio dos Santos, da Variettá, revelam que nos últimos quatro anos dobrou a demanda pela numeração acima de 40. Hoje, a numeração especial representa 30% da produção. E a visibilidade da marca é garantida pelo cantor drag queen Pabllo Vittar, que surge nas redes sociais com um par de sapatos todo luminoso e encomendou uma bota maxi over, e por Silvero Pereira. Lojistas do Paraná despontam entre os clientes, como a Sapato Show, ao lado de São Paulo e Rio de Janeiro. Só na Zero Grau, a loja carioca Pé de Anjo solicitou 450 pares do tamanho 40 ao 44 e o pedido da loja Domínio da Moda, do Rio Grande do Sul, foi de 600 pares. “Essa demanda significa um dia de produção”, comemora Márcio dos Santos, para quem “o tema da feira caiu no nosso colo”,
Odete Lis, com loja de calçados há 30 anos sediada no interior de São Paulo, conta que a numeração especial surgiu de uma necessidade pessoal. “Eu calço 43 e queria sapato bonito. Sofri muito, hoje não mais”. Seu público maior são atores, drags, travestis.
No estande da Jota Pe, onde o ator Silvero Pereira foi festejado, não há calçados femininos, pois este não é o foco da empresa. Mas o solado dourado dos sapatos sociais masculinos mostra que os homens também querem brilhar, independente de raça, cor, idade ou sexo.
A feira também bateu recordes de expositores (320) com suas 1200 marcas, de lojistas (mais de três mil) e de importadores (200 de 35 países). Para a próxima edição, Frederico Pletsch já anuncia o Tudo Novo de Novo, sinalizando a renovação que o evento traz para importante setor que emprega mais de 300 mil pessoas no país.

Roberta nos corredores da Zero Grau: alívio graças à numeração especial