Carlos Roberto Solera*

Recebi em 20 de julho, um telefonema que muito me alegrou, vindo do gabinete do deputado Rasca Rodrigues, que dizia ter enviado um “presente”. Fiquei ansioso e à espera de tal “regalo”. Logo que me foi entregue, vi que se tratava de algo que foi motivo de uma grande busca de minha vida, nestes últimos 15 anos. No Paraná, havia sido sancionada a Lei nº 19.141, de 27 de setembro de 2017, que “regulamenta a atividade de Turismo Rural como atividade rural na Rota dos Tropeiros”.

Qual importância disso, talvez pergunte o leitor?

Bem, além de ser um instrumento de excelente possibilidade de ganhos financeiros para empresários já atuantes no segmento do Turismo Rural, e mesmo, para agropecuaristas, sitiantes e outros, que atuam na área rural, mas ainda não estão nesta atividade em seu dia a dia, a Lei 19.141 traz facilidades de enquadramento jurídico na atividade, além de resgatar e valorizar uma gama intensa da história do território paranaense e de outras partes do Brasil.

Viajei no tempo e voltei a minha infância.

Nascido em Taubaté, interior de São Paulo, desde pequeno gostava de ir à fazenda de meu padrinho e ver a atividade tropeira que ali se desenrolava, qual seja, o transporte do café em lombo de muares até o porto de Ubatuba, de onde ia para Santos e depois, se distribuía pelo mundo.

Havia uma intensa preparação de muitos peões para a viagem. “Traias” de montaria, comida, verificação do estado dos animais e da preciosa carga a ser transportada, etc.

Fazia-se um grande falatório e movimentação para a saída da tropa, que às vezes, chegava perto de cem muares em movimento. Ali, eu brincava de ser “menino madrinheiro”, figura importante nas comitivas tropeiras que deram origem à grande costura que fez do Brasil uma nação multicultural. Esse menino ia à frente da tropa de muares, montado na égua madrinha, um animal mais velho, que era respeitada pelas demais animálias, nunca ultrapassada e que ditava a marcha da tropeada.

Às vezes, o padrinho me permitia montar e acompanhá-lo por um pequeno trecho da viagem. Depois eu voltava para a sede da fazenda, pois a viagem de muitos dias era uma caminhada difícil e até mesmo perigosa, a ser feita por aqueles homens que inebriavam minha mente infantil.

Queria ser como eles, pensava, então. Aquilo sempre me encantou e ficou aninhado em um canto de minha alma, a espera de um dia desabrochar.

O tempo passa ligeiro e a vida da gente toma outros rumos. Após os estudos fundamentais, entrei na universidade e fiz o curso de odontologia. Ao final dos anos 1960, mudei para Goiás e dei início a minha carreira profissional, na então nascente cidade de Goiânia, que é contemporânea à paranaense Londrina.

Ao nascimento de meu primeiro filho, em 1975, sendo indagado por um compadre sobre qual mundo esperava deixar a ele, respondi-lhe que gostaria de escrever um livro sobre a história brasileira, para que isso num futuro lhe fosse instrumento de identidade cultural.

Comecei a pesquisar a história do Brasil e como era isso difícil numa época em que não havia internet e muito menos “dr. google”, wikipédia, etc. A história brasileira focava muito a figura do “bandeirante”, suas andanças para aprisionamento de indígenas, conquistas territoriais, etc.

Mas, num momento especial, me deparei com um livro de José Alípio Goulart que falava sobre Tropas e Tropeiros na formação do Brasil. Foi o estopim para libertar as lembranças de minha infância. E não parei mais de pesquisar sobre a “esquecida” figura então, do homem tropeiro, que junto com o índio e o negro, escreveram uma das mais belas páginas da história brasileira, a partir dos anos 1730.

São 42 anos de pesquisa e 3 livros escritos, sobre esta importante saga histórica de nosso país, que por razões diversas nem sempre foram valorizados. E o Paraná foi um dos territórios mais importantes desse ciclo, que perdurou por mais de 200 anos.

Aposentado da odontologia, vim para o Paraná em 1985 e busquei aprofundar e valorizar esta epopeia. Já atuante nas atividades de agropecuária em Arapoti, na Capal, cooperativa ligada ao grupo Batavo, senti necessidade de procurar novas oportunidades para a área rural. Daí, para me entrosar com um grupo de ruralistas do município catarinense de Lages, que pensava da mesma forma, que eu, foi um pulo.

Logo, criávamos uma nova modalidade de atividade rural no Brasil, o então, de início “desacreditado” Turismo Rural, isso ao fim dos anos 1980. Algo que começou com apenas 4 propriedades rurais e hoje assoma mais de 16.000, espalhadas por todo o Brasil. A proposta caiu no gosto de nosso povo e logo começou a crescer muito. Era hora de colocar diretrizes na atividade.  Aí, criamos a Associação Brasileira de Turismo Rural – Abraturr. Fui seu diretor técnico por 4 anos e depois, por outros 10 anos, presidente executivo nacional. Hoje, presidente honorário da entidade.

Em 2002, com a criação oficial do Ministério do Turismo, em Brasília, fomos a segunda instituição brasileira a ser chamada para compor o Conselho Nacional de Turismo, órgão de apoio as políticas nacionais de turismo, do Ministério. Lá permaneci por nove anos e introduzi o Tropeirismo como uma proposta cultural para o turismo brasileiro. Achava que a relação Tropeirismo com o turismo cultural e rural do Brasil era fator excepcional e até então, não fomentado no cenário nacional do turismo.

Mas o Turismo Rural ainda não era reconhecido oficialmente no país, como atividade agro-econômica. Era, pois, necessário, se eliminar entraves burocráticos atualizando a legislação vigente, e, inclusive, disciplinar as relações trabalhistas entre o empregador rural e seus funcionários quando no exercício de atividades para atendimento de turistas.

Assim, em 2008, estimulei o amigo e deputado federal por São Paulo, Silvio Torres, então, muito envolvido com as atividades de Turismo Rural, a propor à Câmara Federal um projeto de lei que transformasse o Turismo Rural em atividade rural oficial do país.  Ele, então, elaborou e apresentou o Projeto de Lei nº Lei 5.899/1973 que estabelece normas reguladoras para o trabalho rural, para considerar também como “atividade agro-econômica” a exploração do Turismo Rural. Assim, após as idas e vindas da proposta no Congresso Nacional, a lei acabou sendo sancionada, pela então presidente Dilma Roussef (Lei nº 13.171 de 21.10.2015, publicada no D.O.U. em 22.10.2015.)

Mas apesar desta imensa conquista, isso acabou não sendo dinamizado na maioria dos estados do Brasil.

Felizmente, isso agora é realidade no estado do Paraná, por ação direta de proposição dos deputados Rasca Rodrigues e Anibelli Neto.

Mas o que é a Rota dos Tropeiros, poderá também o leitor indagar?

Como consultor em Turismo Rural, através da empresa Consultur e sociedade com o dileto amigo Eduardo Zardo, elaboramos a partir do ano 1998, no Paraná, o projeto turístico e cultural, Rota dos Tropeiros, que com apoio do Sebrae/PR, Secretaria de Turismo e Associação dos Municípios dos Campos Gerais –AMCG, logo depois começou a tomar forma.

Na época, em um levantamento inventarial que fizemos, computamos mais de 160 cidades do Paraná com alguma origem no ciclo do Tropeirismo. Como fazer, então?

Estabelecemos o projeto em 3 rotas de atuação – uma abrangendo o primeiro caminho oficial de tropas, que vinha de Rio Negro e cortava os Campos Gerais, envolvendo 16 municípios; a segunda, depois, sairia de Foz de Iguaçu e iria até o litoral do Paraná; e uma outra, que cruzaria toda a região do Norte Novo. O estado estaria todo inserido no mais audacioso projeto turístico cultural do Brasil, até então elaborado, onde se envolveriam mais de uma centena de municípios.

E o que aconteceu então?

O projeto Rota dos Tropeiros, em sua primeira fase, foi lançado, oficialmente, na Fazenda Capão Alto, no município de Castro, em 2003, com a presença, inclusive, do então, ministro do Turismo Walfrido Mares Guia e inúmeras autoridades do estado do Paraná. Um projeto global que envolvia roteiros turísticos municipais, cursos de capacitação e qualificação empresarial e operacional dos agentes da atividade, criação de uma agência de desenvolvimento abraçando empresários e representantes administrativos dos municípios envolvidos (G32), convênios com diversas empresas, e fortíssimo marketing, entre outras ações.

Mas a Rota dos Tropeiros, conforme foi proposta por nós, não sobreviveu mais que um ano. Motivo? Fomos afastados do “filho que havíamos criado” e os que nos sucederam, por razões diversas que não cabe aqui relembrar, e os que a assumiram, não tiveram a competência de fazer a proposta se consolidar. Virou um projeto apenas “em folheteria”.

Não desisti. Em 2010, criei o projeto Tropeiro Brasil, que agora, após oito anos de muito trabalho e sem recursos outros que não os meus, de minha família e alguns amigos, vai se afunilando para seu objetivo final, qual seja, titular a Cultura Tropeira como patrimônio imaterial brasileiro pelo Iphan. Em breve estaremos dando entrada no Iphan com o projeto finalizado e busca nesse sentido.

Um fato importante ocorreu nos trabalhos do projeto Tropeiro Brasil. Quatro anos atrás, minha esposa Eleni, também pesquisadora da temática tropeira, e eu, começamos a buscar um documento nos arquivos públicos de Curitiba, que comprovasse realmente algo que a história brasileira citava como fato acontecido: que em 19 de setembro de 1731 o capitão Souza e Farias, encarregado pelo governo português, em abrir o primeiro caminho de tropas oficial do Brasil, trajeto iniciado na região litorânea de Araranguá/SC e terminado na fazenda Os Carlos, em São Luiz do Purunã, havia estado na Câmara de Vereadores de Curitiba. E ali comunicado que após quase três anos de trabalho (fevereiro de 1728 a setembro de 1730), a abertura do caminho estava concluída. Era a primeira Câmara de Vereadores do Brasil a receber esta honraria.

Busca daqui, busca de lá, após quase quatro meses acabamos encontrando o documento sobre isso, no Arquivo Público da Câmara de Vereadores, em livro que retrata atividades oficiais ocorridas na Casa desde o final dos anos 1600. Aí, por iniciativa, do ilustre vereador, à época, Jorge Bernardi, acabou sendo criada, oficialmente, a Semana do Tropeirismo em Curitiba, com data magna em 19 de setembro.

Então, foi com denodada esperança, que há uns três anos fui convocado ao gabinete dos amigos e deputados Rasca e Anibelli, que me falaram sobre as ações que vinham desenvolvendo para fortalecimento, e propriamente, digo eu, o “renascimento”, do projeto Rota dos Tropeiros.

Dentro da visão institucional, fizeram a parte que lhes cabe, com muita energia e dedicação por fazer o Paraná ter em seu seio, esta proposta de encantamento a seus visitantes pela parte histórica cultural do Tropeirismo e também, de oportunidades aos envolvidos nas atividades de trabalho, pela abrangência da lei sancionada. Cabe agora aos empresários fazerem sua parte, que é de torná-la um instrumento de desenvolvimento da atividade.

Assim, com muita alegria, mesmo, vejo agora este grande passo proposto por eles, ser concretizado – a Lei Estadual 19141.

Parabéns, nobres deputados Rasca Rodrigues e Anibelli Neto pela proposição e ao então governador, Carlos Alberto Richa, por ter sancionado importante fomento a atividade de Turismo Rural do estado do Paraná, que dessa forma, dá exemplo aos demais irmãos de outros estados do Brasil.

*Carlos Roberto Solera é odontólogo, consultor em Turismo Rural e escritor.

carlos_solera@hotmail.com