Processo Multiartes reencena CriÂnsia, espetáculo que propõe uma experiência sensorial ao contrapor infância e vida adulta, com referências atuais. A temporada será no TEUNI, com entrada gratuita, a partir desta sexta-feira.

Como a vida adulta quebra o espírito lúdico que é a essência da infância para programar as pessoas a partir de uma ótica mercadológica. Este é o ponto de partida da peça, com direção e roteiro de Adriano Esturilho. O espetáculo foi montado em 2003 e retorna agora como outro elenco, novas cenas e um olhar que dialoga com o momento atual.

“A ânsia de crescer e a cria de ansiar são as frases que dão o norte para o espetáculo”, adianta o diretor. “Queremos falar sobre como a vida adulta, desde cedo, faz a gente perder o espírito lúdico e nos condicionando para a selvageria do mercado, do trabalho, da sede de consumismo”.

Brincadeiras, brinquedos e referências a programas de auditório populares nos anos 80, bem como algumas cenas que tencionam a vontade de manter-se neste universo lúdico em meio à intolerância e violência que crescem, ajudam na construção de uma metáfora do teatro em escombros.

A ambientação envolve e convida a plateia a participar de um grande quebra-cabeças. “E ao artista cabe envelhecer mantendo esse espírito lúdico da infância. E isso se manifesta na forma sensível como faz e observa as coisas, como ele critica, no jeito como tenta sair dessa caixinha para a qual somos preparados desde cedo”, pontua Esturilho. “É uma atitude que tem parentesco claro com o olhar supostamente irresponsável da criança, sob o viés adulto”.

Com intervenções musicais ao vivo, uma marca dos trabalhos da Processo, CriÂnsia é um trabalho mais visual e propõe imagens que suscitam sensorialmente o público. Os temas aparecem mais diluídos, mas são claramente perceptíveis. “É mais sensorial, mas também reforça um lado cruel que procuramos dar… Fala da infância, mas tem muito a ideia da ânsia muito presente no conceito de construir”, pontua o diretor que ao optar pelos tambores ao vivo  trouxe um clima um tanto ritualístico à cena.

A Processo também toca em outro tema caro a seu currículo, que é a interação. O cenário é um grande quebra cabeças, em meio aos escombros de um teatro, e as pessoas são convidadas a participar. “Elas estarão espalhadas pelo espaço e as arquibancadas não serão usadas. Queremos criar uma simbologia do momento: a gente ainda tem o teatro, ainda temos acesso a ele, mas as pessoas já não podem sentar nas poltronas. O que está em escombros, será destruído, que é o que acontece em momentos como o que vivemos. É um desconforto que propomos à plateia”, fala Esturilho.

As referências ao momento político foram inevitáveis. “Isso influencia no olhar das pessoas para o espetáculo e, claro, nos influencia também! Em 2003 era outro o planeta em que vivíamos. Essas questões, ligadas à violência e intolerância existiam, mas não ressoavam tanto”, diz comentando sobre uma cena de malhação do Judas que traduz a intolerância com minorias. “E com a não aceitação da diferença, que também é uma forma da vida adulta podar este espirito livre da criança”.

Confira: Temporada gratuita de 16 de novembro a 16 de dezembro. De quinta a sábado, às 20h30 e aos domingos, ás 19h30. Entrada franca. Viabilizado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Curitiba, CriÂnsia tem o incentivo do Banco do Brasil.