Depois de passar pelo que pode ser considerada a pior recessão que o país já enfrentou na história, o Brasil tem atraído investidores com perspectivas renovadas para um novo governo mais pró-mercado. “Há poucos destinos tão atraentes quanto o Brasil” atualmente para investidores em mercados emergentes, relata o presidente para a América Latina da Morgan Stanley, John Moore, em entrevista à Bloomberg. O banqueiro enxerga o futuro brasileiro com bastante otimismo para deals de M&A e financiamento, e destaca que atualmente “o país tem escala e estabilidade geopolítica, crescimento econômico com baixa inflação, juros decrescentes e uma diversidade de negócios para investir”.

O mercado de capitais vive uma fase vigorosa, com a Bovespa batendo recordes semanais e a moeda brasileira estável, independentemente das novas denúncias políticas que surgem. Isso tem acontecido porque há elevada liquidez no mundo e o dinheiro está vindo para o Brasil, com o mercado financeiro e os empresários brasileiros menos sensíveis ao desfecho de turbulências políticas, mas prestando atenção nos planos ambiciosos de privatizações e concessões de infraestrutura por parte do governo. Esse contexto tem levado os bancos a revisarem para cima as projeções do capital levantado na Bovespa neste ano, com Bradesco BBI, BofA Merrill Lynch e BTG Pactual estimando que as ofertas somem cerca de R$ 50 bilhões em 2017, o que resultaria na maior oferta de ações desde 2009.

Independentemente da volatilidade causada pelas eleições presidenciais que virão em 2018, o resultado deverá ser similar a médio-longo prazo. O Estado brasileiro está com capacidade limitada para investir e para pagar as suas contas, e, portanto, qualquer presidente ou partido eleito terá de fomentar reformas pró-mercado nos próximos anos, tornando o momento atual oportuno para investidores estratégicos se posicionarem no país.

Medidas políticas muito importantes, como a reforma trabalhista, o teto dos gastos e a nova taxa de longo prazo (TLP) que será utilizada em contratos do BNDES, já foram aprovadas pelo Congresso. Essas medidas pavimentam o otimismo para a economia e o apoio popular para outras medidas, como uma reforma mínima da Previdência.

Não obstante, existe hoje uma distinção mais clara entre a crise política e a economia e o mercado de capitais, na visão do sócio-diretor da Advent International, Patrice Etlin. Com a crise econômica e política dos últimos dois anos, na qual muitos brasileiros ficaram desempregados e em condições agravadas, enquanto políticos foram indiciados por corrupção e uso abusivo do dinheiro público, evidenciou-se à sociedade o risco de insistir na dependência de um Estado provedor inchado e ineficiente, tendo o país atualmente mais abertura para um mercado liberal.

O maior exemplo disso é a possível privatização da Petrobras, discutida sem censuras hoje em dia. Do ponto de vista dos investidores estratégicos, a lacuna causada por escândalos políticos, como a Lava Jato, abriram enormes oportunidades no país, já que levaram ao mercado ativos que não estavam disponíveis, como empresas que tiveram de ser vendidas para gerar caixa.

Não são poucos os casos de empresas brasileiras com potencial, mas endividadas atualmente, tornando interessantes aquisições com foco no longo prazo. Muitas dessas companhias apresentam alto valor agregado em seus Valuations, mas estão atualmente subvalorizadas no mercado, seja por restrições no acesso a crédito, por escândalos de corrupção de gestões anteriores, ou por projeções para cenários macroeconômicos mais pessimistas, mas já ultrapassadas.

Diversos fatores essenciais já estão mudando de perspectiva, haja vista que inflação e juros estão caindo, há melhoras nos níveis de confiança e desemprego, e os preços de commodities e o rating de crédito soberano estão mais estabilizados, reduzindo as elevadas incertezas para prever o futuro.

Grandes boutiques internacionais de gestão de recursos, como a Franklin Templeton e a BlackRock Inc., apostam que as ações e debêntures de mercados emergentes como o Brasil ainda deverão crescer acima da média nos próximos anos, conforme seus mercados de capitais se recuperam de um período de cinco anos de performance desproporcionalmente inferior à dos títulos dos EUA, desde o taper tantrum americano em 2013. Ao mesmo tempo, os mesmos indicadores sinalizam que ainda há muito potencial para crescer, já que as proporções que os gestores de recursos internacionais destinam aos mercados emergentes ainda estão substancialmente abaixo dos vistos pré-crise do subprime, em 2008.

O chefe de mercados de capitais do BTG Pactual, Fábio Nazari, em entrevista ao jornal Valor Econômico, ressalta que os fundos que já se posicionaram efetivamente no Brasil são os mais voltados para a América Latina e “os grandes fundos globais ainda não entraram para valer no Brasil […]. Quando vierem, e acredito que virão, poderemos ver um grande fluxo para ofertas de ações até 2019”.

Fonte: Capital IQ, 2017.

O Brasil recebeu 47% de todos os IED (Investimentos Estrangeiros Diretos) direcionados à região da América Latina e Caribe em 2016, de acordo com relatório da CEPAL-ONU (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe da Organização das Nações Unidas), uma alta de 5,7% em relação ao ano anterior. Esta porcentagem é equivalente a US$ 78,9 bilhões, a maior injeção de investimentos em um país na região.

A situação brasileira é divergente, já que o aumento de IED acontece em um contexto de diminuição de investimentos na América Latina, visto que a entrada de IED na região caiu 7,9% em relação a 2015. Inclusive, a maioria das nações em desenvolvimento, com exceção do Brasil, receberam menos investimentos, ao contrário das regiões desenvolvidas, com quedas de 15% na Ásia e de 3% na África.

Os maiores investimentos no Brasil vieram da União Europeia, EUA e China, que é o país que mais tem elevado o protagonismo de investimentos no mundo. Apesar da dificuldade de obter dados oficiais dos chineses, eles foram responsáveis por 32% de todo o capital estrangeiro destinado a M&A no Brasil ano passado, conduzindo duas das maiores transações cross-border (i.e. China Molybdenum Co. Ltd., em mineração, e China Three Gorges Corp., em energia), ambas operações bilionárias. Dados do 2T deste ano reiteram o crescimento de capital global vindo ao país, principalmente de chineses no setor brasileiro de energia, apesar de que a maioria do IED chinês até agora é focado em fusões e aquisições com empresas locais, e não de projetos greenfields ou joint-ventures.

Existem, naturalmente, alguns riscos para este cenário otimista no país. No curto prazo, o maior risco é externo, pois caso a economia americana retome de forma mais vigorosa e os juros forem elevados pelo Federal Reserve além da expectativa do mercado, o capital global migrará dos mercados emergentes para os EUA, que é um mercado com menos riscos e que tem performado melhor que mercados emergentes nos últimos cinco anos. Isso causaria uma depreciação do real e uma situação mais prolongada para o crescimento no Brasil. No longo prazo, o ponto fraco do país é quão eficiente será conduzida a reforma fiscal.

O governo pretende aproveitar a onda de otimismo para atrair grandes investimentos e anunciou em Agosto um pacote de 57 projetos para serem colocados à venda ou concedidos à iniciativa privada, podendo receber R$ 44 bilhões em investimentos nos próximos anos. Bruno Amaral, responsável por M&A da BTG Pactual, menciona que a próxima rodada de concessões deverá, de fato, vender uma alta proporção de ativos brasileiros a empresas internacionais e consórcios, que buscam esta oportunidade única para ganhar escala no mercado brasileiro. As condições atuais realmente são favoráveis para tal, sendo que muitas empresas internacionais têm acesso a financiamentos a taxas muito baixas.

A BDO contribuiu ativamente nesse cenário auxiliando empresas privadas de médio a grande porte e múltiplos investidores nacionais e internacionais com serviços de Valuation, M&A e Due Diligence, entre outras assessorias. A BDO participou com trabalhos de valorização e assessoria relacionada às transações da Serviços e Tecnologia de Pagamentos S.A. (Sem Parar), adquirida pela FleetCor Technologies Inc., e da Vonpar S.A., adquirida pela Coca-Cola Femsa S.A.B. de C.V., ambas transações que superam US$ 1 bilhão e estão entre os 10 maiores M&A cross-border na América Latina e Caribe em 2016, conforme tabela abaixo.

10 maiores M&A cross-border na América Latina e Caribe em 2016

Compradora – País de Origem Target – País dos Ativos Setor Valor (USD MM) País do Vendedor
Brookfield Renewable Partners – Canadá ISAGEN S.A., E.S.P. (99,6%) – Colômbia Energia                3.528 Colômbia
Statoil ASA – Noruega Bacia de Santos bloco de exploração (66%) – Brasil Óleo e gás                2.500 Brasil
Teva Pharmaceutical Industries Ltd. – Israel Representaciones e Investigaciones Médicas S.A. – México Farmacêutico                2.300 México
Anadarko Petroleum Corp. – EUA Freeport-McMoRan-Gulf of Mexico – México Óleo e gás                2.000 EUA
Vinci AS – França Línea Amarilla concession – Perú Serviços                1.661 Brasil
China Molybdenum Co. Ltd. – China Anglo American-niobium and phosphates – Brasil Mineração                1.500 Reino Unido
I Squared Capital Advisors US LLC – EUA Duke Energy Latin America – Argentina/Chile/Equador/El Salvador/Guatemela/Perú Energia                1.200 EUA
China Three Gorges Corporation – China Duke Energy International Brazil – Brasil Energia                1.200 EUA
FleetCor Technologies Inc. – EUA

Cliente BDO*

Serviços e Tecnologia de Pagamentos S.A. – Brasil Serviços                1.089 Brasil
Coca-Cola Femsa S.A.B. de C.V. – México

Cliente BDO*

Vonpar S.A. – Brasil Bebidas                1.029 Brasil

*A BDO participou com trabalhos de valorização e assessoria relacionada as transações.

*Romina Lima é diretora de valuation and business analytics da BDO, uma das Big 5 do setor de auditoria e consultoria no país