BRUNO PESSUTI PARECE DIZER A QUE VEIO: ELE QUER FAZER A DIFERENÇA

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Bruno Pessuti: diferenciado positivamente (foto Annelize Tozetto)

 

Há uma nota destoante entre a pesquisa divulgada terça-feira pelo Datafolha, com 60% de desaprovação ao Congresso, e o Exército do Eu Sozinho do vereador Bruno Pessuti (PSD). Sem julgamentos outros, ele parece ter ganhado a condição de político preparado.

DOA A QUEM DOER

Em 2013, o parlamentar (filho do ex-governador Orlando Pessuti) foi o relator da CPI do Transporte Coletivo de onde emergiu um relatório recheado de irregularidades, “sem olhar a quem” se destinava e “doendo a quem doer”.

O ACHISMO DA URBS

Constatou-se, por exemplo, que a planilha de custos do sistema administrada pela Urbs não era sequer auditada. Empirismo não havia.

Havia “instinto” e “achismo”. Em prejuízo da população e dos cofres públicos.

TARIFA NAS ALTURAS

Mesmo com todas as evidências contrárias, a Câmara Municipal de Curitiba rejeitou o relatório. Era um alerta do que viria a seguir com a posse de Rafael Waldomiro Greca de Macedo na prefeitura e a tarifa a estratosféricos R$ 4,25.

SUCATA NAS RUAS

Ontem, quando a entrevista se desenrolava um novo biarticulado começava a operar nas ruas de Curitiba. É pouco. A frota de 1.200 ônibus, dos quais 150 expressos, está sucateada.

Um biarticulado tem vida útil de 12 anos. Um ônibus, 10 anos. Esse tempo já venceu. Só em março do ano que vem as empresas que controlam o transporte coletivo devem passar a operar com 25 novos ônibus nas canaletas, todos de dupla articulação. Os convencionais e alimentadores terão que esperar.

LIVRE DA MENSALIDADE

Engenheiro mecânico formado na PUC do Paraná, Bruno Pessuti é um prodígio no setor. Foi o primeiro colocado no vestibular da faculdade e ganhou bolsa integral, livrando-se das agruras e sofrimentos do “carnê”.

Em cinco anos desembolsou apenas R$ 360 referente a taxa de R$ 2 mensal do Centro Acadêmico.

EXPERIÊNCIA COMPROVADA

Quando assumiu a relatoria da CPI vinha de experiências na assessoria operacional e no controle de protocolo da Siemens, na engenharia de obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e na condição de especialista em manutenção da New Holland, em especial as colheitadeiras. Sabia, portanto, avaliar custos operacionais de uma empresa.

ADEUS FATIA GORDA

A Urbs, uma empresa de economia mista cujo presidente é nomeado pelo prefeito de Curitiba, viu-se emparedada e, de um dia para o outro, privada da fatia gorda de 4% do faturamento anual do sistema de transporte. A solução encontrada foi criar um programa de demissão voluntária (PDV) para reduzir 156 cargos do quadro de funcionários. É pouco.

TARIFA TEMPORAL

Pessuti defende a criação de um bilhete único – a chamada tarifa temporal – que conta com a anuência do prefeito, mas a oposição da Urbs.

O vereador impressiona pela lucidez e pela objetividade de suas propostas. É um dos poucos, talvez o único, que não quer fazer de um núcleo de bairro o seu maná eleitoral.

CURITIBA, UM SER VIVO

Muito asfalto e poucas calçadas, os males da cidade são. Pessuti vislumbra Curitiba tal como um ser vivo. O que de fato é. Jaime Lerner sabia disso já em seus primeiros dias às voltas com dilemas urbanos no Ippuc. Há necessidade de dar destino (e utilidade) ao Aterro do Caximba, de construir telhados verdes para absorver a água da chuva e evitar alagamentos, de encontrar alternativas para obtenção de energia e dela fazer uso para o futuro que virá. Mais breve e misterioso do que pode imaginar a nossa vã filosofia.

(Fotos da Annelize Tozetto)

Bruno Pessuti: diferenciado positivamente

MURICY, VIDA ENTRE BASQUETEBOL E MEDICINA

José Candido Muricy: pioneiro e “Medicina com alma”

Um dos muitos personagens interessantes que meu livro Vozes do Paraná, Retratos de Paranaenses, volume 10, apresentará em 2018, é José Candido Muricy, 73.

Ele é bom exemplo de mobilidade social na sociedade moderna que abre portas à livre iniciativa.

Médico muito bem formado na UFPR – quinto lugar entre 200 -, bem-sucedido desde o começo em sua profissão, Muricy tem história singular de vida, marcadamente a de um empreendedor na área médica.

NUMA SALINHA

As coisas com ele começaram assim: em 1976, ousando e arriscando o pouco capital de que dispunha, alugou uma pequena sala de 25 metros quadrados, na Vila Hauer, em Curitiba, e colocou – literalmente – mãos à obra.

Mandou imprimir uma série de panfletos que anunciavam sua clínica, a que deu o nome (sugestão do pai) de Clinihauer.

PANFLETAGEM

Distribuídos os panfletos fartamente naquela área da cidade, os clientes foram aparecendo em busca de socorro num tempo em que os planos de saúde apenas engatinhavam. A clientela não parava de crescer.

Associando-se, em seguida, a mais dois companheiros médicos, Muricy atendia a toda sorte de situações: de partos à cardiologia, de endocrinologia a “check-ups”… Dia e noite.

BISAVÔ DR. MURICY

Nascido em família tradicional de classe média, bisneto do Dr. Muricy, esse nome quase lendário da História do Paraná – fundador da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba – José Candido foi dos pioneiros na venda de planos de saúde para empresas. Não há exageros na afirmação. São testemunhos desse pioneirismo as empresas que foram contratando os serviços médicos para seus empregados, como a Inepar, o Bamerindus, os Correios, Placas Paraná, a Fiep…

A história da Clinihauer é marco na história da Medicina do Paraná.

Chegou a ter 130 mil beneficiários, 1.500 empregados, um hospital muito bem equipado, o Milton Muricy (nome do pai de José Candido), na CIC, convênios com outros hospitais.

MEDICINA COM “ALMA”

Em 2007, encerrou suas atividades a Clinihauer, sendo adquirida pelo grupo AMIL, pelo valor, então, de R$ 55 milhões.

José Candido Muricy tem depoimentos preciosos sobre o nascimento, o desenvolvimento e o porquê do fim de sua Clinihauer.

Basicamente, ele foi sentindo que, com as pressões da vida moderna, estava ficando difícil manter “Medicina com alma”, como a que ele praticava na Clinihauer.

Isto quer dizer: os compromissos financeiros enormes iam avultando e ele, correto no relacionamento empresarial, não admitiria, jamais, tratar o paciente apenas como “mais um número”. Não faria concessões à qualidade do serviço médico em função de lucros.

Vendeu a Clinihauer para não se trair.

BASQUETE CAMPEÃO

Carlos Marassi e Luiz Carlos Hauly: companheiros de basquetebol sênior.

José Candido Muricy é hoje um referencial brasileiro em cirurgia capilar. Antes, notabilizou-se como cirurgião plástico. E, ao mesmo tempo, foi montando uma história de campeão no universo do basquetebol, vencedor em campeonatos.

Na categoria do basquetebol sênior, Muricy tem se apresentado mundo afora. Ele e seus companheiros de basquete, veteranos como Carlos Marassi, Luiz Carlos Hauly, e, no passado, o jornalista João DeDeus Freitas Neto (in memoriam).


“EL GRAN CAPY”, UM LIVRO SOBRE SUPERAÇÕES

Jornalista Patricia Iunovich

O livro “El Gran Capy”, será lançado neste sábado em Curitiba. É assinado pela jornalista Patricia Iunovich.

E Patricia não poupa suas lembranças. Narra, sem medo, todas as facetas de Antônio Francisco Iunovich, um argentino que fugiu do Exército, trocou de nome e se tornou uma lenda em circos e parques de diversões, ao arriscar a vida pilotando uma moto na Muralha da Morte.

A jornalista, nas 176 páginas do livro da Geração Editorial (R$ 36,90), relembra a vida de sua família, que morava num trailer e mudava de cidade em cidade, seguindo as apresentações da Muralha da Morte. Foi assim por toda a sua infância e adolescência, de 1971, quando nasceu, até o início dos anos 1990.

VIDA NÔMADE

Às vezes podia ser bom ter todos os brinquedos de um parque “no quintal de casa”, mas a vida nômade também tinha muitas agruras. Como “El Capy” era uma das principais atrações, o estrelato trazia reflexos para a relação familiar. O sucesso, o dinheiro, as cicatrizes da acrobacia, o assédio das mulheres, as viagens pela América Latina, tudo isso é contado no livro, cheio de fotografias da época.

SERVIÇO

Patricia Iunovich lança “El Gran Capy” no sábado, 9 de dezembro, na Livraria do Chain (R. General Carneiro, 441) das 9h30 às 12h30.

A partir das 10h30 o mágico e ilusionista Diogo Alvares fará performances durante o evento. Diogo já se apresentou em mais de 40 países, inclusive em apresentações de rua, e é especialista em manipulação, utilizando cartas, bolas de sinuca, cigarros e diversos objetos do dia a dia para executar seus números e espetáculos.


IGNORÂNCIA, IGNORÂNCIA

Daniel Medeiros*

Paulo Freire

Paulo Freire foi um educador que defendeu a condição fundamental da liberdade dos brasileiros. Sua obra e sua ação voltaram-se, até o fim de sua vida, a um objetivo maior: tornar as pessoas conscientes de seu lugar e de seus direitos no mundo. Um mundo livre. Trabalhou na Europa e na África porque não pode trabalhar no Brasil, assim como milhares de outros cientistas e professores. Na época o Brasil não era um lugar seguro para o pensamento que criticava as ações que impediam a formação da consciência dos direitos que todas as pessoas têm no mundo. Foi uma época de poucas liberdades. E todos pagaram por isso: uns indo para o exílio, outros sendo presos e a maioria, a grande maioria, ignorando. E ignorar é o contrário da Educação. Paulo Freire agiu contra a Ignorância.

PATRONO DA EDUCAÇÃO

Depois de muita luta – luta do diálogo e da negociação – o Brasil tornou-se um país livre e Paulo Freire foi destacado com o título de patrono da Educação brasileira. Esse título não lembra apenas a pessoa que ele foi, mas a causa que ele representou: a buscar, incessantemente, efetivar a máxima iluminista de liberdade, igualdade e fraternidade.

QUEM É ESCLARECIDO

Kant, o grande pensador iluminista do século XVIII, definia uma pessoa esclarecida como aquela que é autônoma, capaz de seguir sua própria razão. Paulo Freire também entendia assim o papel da Educação: um aprendizado e uma prática para a autonomia. Nada mais liberal do que isso.

Habermas, o maior pensador da social democracia alemã, evoca a importância do diálogo e da formação do consenso nas sociedades democráticas, da construção de uma nova racionalidade comunicativa. E, para isso, a importância de educar as pessoas para o diálogo e para o respeito. Paulo Freire, na sua produção teórica e nas suas ações pedagógicas e políticas foi fiel a esses estatutos formadores da cidadania: racionalidade, diálogo e respeito. Nada mais democrático do que isso.

PAÍS SEM ESCRAVOS

Immanuel Kant e Jürgen Habermas

Um país é livre quando não tem escravos. Escravos são os que não são capazes de definir seu destino: escolha para onde ir, com quem fazer amizade ou amar, onde trabalhar, qual carreira seguir, em quem votar, com qual país sonhar. O Brasil luta para ser livre e quem quer, de fato, liberdade no Brasil, quer para todos os brasileiros. Ou então é um embusteiro, que usa a palavra liberdade como um disfarce para manter a escravidão das pessoas, essa escravidão que é a da falta da autonomia da escolha, seja qual escolha for.

Paulo Freire defendia essa liberdade. Por isso é o Patrono da Educação de um país livre. Quem quer tirar-lhe esse título, não o ofende nem agride, pois que já está morto e enterrado há tempos. Ofende e agride a ideia de um Brasil livre para todos os brasileiros.

*DANIEL MEDEIROS é doutor em Educação Histórica pela UFPR e professor de História no Curso Positivo, de Curitiba.